História e imagens da coleção

O começo

Coleção 1

Por sorte, meus pais compravam o Jornal do Brasil aos domingos e guardavam a revista que vinha de encarte, chamada simplesmente de Revista de Domingo. Provavelmente era o mês de agosto, do ano de 1979 ou 1980, minha tarefa era fazer um trabalho para o dia nacional do folclore – 22 de agosto – baseado em recortes de revistas. Vasculhei o que então me parecia uma enorme pilha de Revistas de Domingo, recortei muitas matérias e colei em um bloco de papel, fiz anotações. Lembro que encontrei coisas sobre capoeira, Círio de Nazaré, comidas nordestinas, coisas que minha professora “tia” Eliane e as professorandas da Escola Municipal 7.8.4. Conselheiro Mayrink, no bairro da Tijuca, haviam falado na sala de aula. Aquele trabalho sem maior importância me despertou um interesse muito especial e, passada a obrigação escolar, eu continuei naquela busca pelo folclore brasileiro e a juntar recortes de revistas.

Coleção 3Por aquela época não sei de onde tirei, com os meus 10 ou 11 anos de idade, uma percepção de que deveria começar a fazer também recortes de jornal sobre acontecimentos relevantes a fim de guardá-los para a posteridade. Assim fiz, por exemplo, com notícias sobre um grave acidente que o atleta João do Pulo sofrera em dezembro de 1981 e sobre a morte da Elis Regina, em janeiro de 1982. E lembro bem que me veio pela primeira vez, eu acredito, uma questão que carrego até hoje. Percebi que aquele trabalho, embora muito importante, me traria um volume demasiadamente grande de papel e eu não sabia como armazenar aquilo tudo. Decidi parar naquele momento.

O fato é que por alguma razão as manifestações culturais, a história, os livros e revistas, assim como muito fortemente a música, me eram importantes desde as minhas mais remotas lembranças de infância.

Ainda criança, ganhei de meu pai uns livretos sobre folclore publicados pela Funarte. Foi o começo desta coleção.

Os sebos de livros e LPs

Coleção 4
Capa do livro O choro, de Alexandre Golçalves Pinto, 1936.

Sair da faculdade, na Ilha do Fundão, e ir para a Tijuca implicava pegar dois ônibus, um até o Centro e depois outro para a Praça Saens Pena. E este caminho significava pra mim percorrer, quase diariamente, uma rota por centros culturais e sebos de livros e LPs no centro do Rio de Janeiro.

Lembro que um dia comprei um tal Guia de sebos e me decepcionei, pois constatei que já conhecia todas as lojas do centro da cidade, além de algumas mais periféricas. E em cada lojas sabia onde estavam as estantes de livros dos assuntos que me interessavam, sabia até quando certos livros eram vendidos, pois sentia a falta deles nas prateleiras.

Esta foi uma fase de descoberta do universo dos livros e de muitos autores, descoberta também de um Brasil através de livros e da formação de uma boa biblioteca, mas ainda não de uma coleção tão significativa.

Sebo - década e 1990
Esta foto foi tirada por um livreiro com interesse em fotografar sua loja, próxima à Praça Tiradentes, lá pelo final dos anos 1990 ou início dos anos 2000, eu apareci acidentalmente e não percebi que tinha sido fotografado. Anos mais tarde, encontrei este livreiro que acabou me dando a foto.

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A feira de antiguidades da Praça XV e os amigos velhos

Abril de 2014
Com seu Marinho, abril de 2014. A estante atrás tem discos brasileiros mecânicos.

Aos sábados de manhã sob o atualmente demolido viaduto da Praça XV, no centro histórico do Rio de Janeiro, havia uma grande feira de antigüidades, que veio caindo em decadência acredito que em boa parte à medida que o comércio pela internet foi se estabelecendo.

Esta feira era um museu a céu aberto e foi uma grande fonte de material e certamente uma escola pra mim. Além de reunir alguns dos melhores livreiros e vendedores de papel antigo que conheci, havia ali uma reunião informal de colecionadores, que depois de garimpar seus discos de 78 rpm em meio àquela infinidade de coisas velhas, naturalmente acabavam parando para conversar.

Odeon 121.313 - Pelo Telephone
Selo do disco com a primeira gravação de Pelo telephone, lançado em 1917

Embora alguns colecionadores grandes aparecessem de vez em quando, um grupo de colecionadores pequenos e médios freqüentava sempre a feira. Era um pessoal de pra lá de 70 anos de idade, com um saber que me parecia muito especial e muito próprio sobre discos e sobre música.Eu acabara de entrar na faixa dos 30 anos, mas conversava com eles com muita fluência e gana de aprender sobre aquele universo. Fiz verdadeiramente bons amigos. 

Naquele local entrei em contato com outros tipos de materiais. lém de livros e LPs, comecei a buscar por fotografias, partituras, documentos variados e fiz a importante descoberta dos discos de 78 rpm, que a princípio repudiava, pois me pareciam muito difíceis de lidar, eram pesados, quebradiços e necessitavam de uma aparelhagem de som que eu então não tinha.

Foi durante um período de pouco mais de dez anos freqüentando regularmente esta feira que comecei a formar uma coleção verdadeiramente representativa e ganhei um aprendizado prático bem interessante.

Em Mesquita com seu Lino
Com seu Lino, na sua casa, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Início dos anos 2000.

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A idéia de criar uma coleção de pesquisa em música

Coleção 4

A idéia de construir uma coleção de pesquisa que fosse significativa sobre música e cultura popular brasileira em geral surgiu como um projeto, não apareceu por um acaso devido a acúmulo aleatório de material. O projeto foi anterior a aquisição da maior parte do acervo.

Neste ponto, acho interessante colocar que eu era um estudante de biologia, bolsista do CNPq, morando a maior parte do tempo em repúblicas de estudantes. E que uma carência de recursos financeiros ou de espaço não impediram o projeto de tomar forma e crescer. Sempre penso nisto e me pergunto por que instituições grandes e estruturadas não formam coleções importantes sobre música, mesmo tendo esta missão institucional.

Claro que a idéia deste projeto de coleção veio grandemente da paixão pela música, pela cultura brasileira, pela história e coisas relacionadas, mas também foram determinantes uma reiterada decepção com os acervos públicos brasileiros relacionados à música e a experiência de ver uma enorme quantidade de  material musical ser descartado ao lixo, sendo disperso ou perdido

Phono arte
Capa da primeira edição da revista Phono-Arte, 1928 

definitivamente, ou ainda, muitas vezes, caindo em mãos de pessoas sem maiores interesses e que nunca iriam entender ou compartilhar nada.

Soma-se a isto, a sensação de ter vivido com bastante intensidade a grande mudança que teve os sebos e o comércio de antiguidades em geral depois do advento da internet e, mais ainda, de ter convivido com o final de uma geração de colecionadores, que vejo que de fato são muito desvalorizados, mas meu entendimento diz que eles foram realmente importantes.

Não vejo que hoje exista uma possibilidade de se criar uma coleção da forma que eu fiz, tendo tão poucos recursos. Nem de aprender com colecionadores da velha guarda, por que eles se foram. Isto trás, além de simplesmente um desejo, um sentimento de responsabilidade e de compromisso de passar para outras pessoas e novas gerações o material e o conhecimento que consegui.

A coleção atual e o futuro 

 

 

 

 

 

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6 comentários

  1. Olá.

    Sou colecionador dos velhos discos de 78rpm.
    Estava navegando pela net, quando me deparei com seu site.
    Gostaria de saber se você possui discos (78rpm) disponíveis para troca.
    Caso sim, responda-me pelo e-mail para começarmos a revelar nossos acervos.
    Forte abraço.
    Miguel.

  2. Sou filha de uns dos colecionadores Alcino de Oliveira Santos ,você conheceu?lembro-me da casa Edison ainda existe?Era menina não consigo lembrar a localidade vc. tem esses dados?abraços.

  3. Ola, Sandor, descobri seu site ao procurar colecionadores como voce. Eu não sou colecionador, mas tenho a musica quase que como religião. Acontece que eu ganhei de uma pessoa amiga uma coleção de discos 78 muito especiais. Sao álbuns de historias infantis com atores da Radio Nacional com trilhas compostas pos Joao de Barro, Radames Gnatalli, Paulo Santoro, etc… e ilustrações primorosas. Tambem sou do Rio e se voce quiser conhecer entre em contato e eu terei o maior prazer em apresenta-la a voce. Ate porque eu pretendo me desfazer dela. Ja emprestei ao IMS para que fosse digitalizada e disponibilidade para o publico, mas eles não de dispuseram a comprar e eu estou pesquisando para saber o que seria um preco razoável a pedir. Aguardo contato. Abracos.

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