A polêmica do omelê: Baiaco, Tio Faustino e os primórdios do samba carioca

Polêmica do Omelê - Baiaco
Osvaldo Vasques, o Baiaco (fonte: internet)

Baiaco era o apelido de Oswaldo Caetano Vasques, um dos nomes mais importantes da geração de sambistas do Estácio que criou o samba como conhecemos hoje e fundou, em 1928, a primeira escola de samba ­– a Deixa falar. Faziam parte deste grupo de sambistas Ismael Silva, Bide, Marçal, Mano Elói, Mano Edgar e outros. Nascido em 1901, no Rio de Janeiro, Baiaco foi um importante percussionista, é incerto, porém, se foi compositor. Existem vários sambas atribuídos a ele, sendo talvez o mais conhecido “Arrasta a sandália”, contudo, há afirmações de que ele apenas roubava músicas, o que era mais ou menos comum naquela época.

O nome de Baiaco ficou conhecido na história do samba, podendo ser encontrados dados sobre sua biografia em vários livros, por exemplo, “O samba de sambar do Estácio”, de Humberto Franceschi. Por outro lado, Tio Faustino, embora tenha sido um personagem bem popular em seu tempo, é pouco lembrado hoje em dia, assim como acontece com vários contemporâneos seus. Não foi encontrado muito sobre sua biografia em livros, sendo necessário recorrer a jornais da época para levantar dados. Seu nome completo era Faustino Pedro da Conceição. Nasceu aparentemente por volta da década de 1870, na Bahia, em freguesia de Santa Anna, localidade que possivelmente compreende o atual município de Feira de Santana ou a Freguesia de Santana do Sacramento, em Salvador. Em 1911 veio para o Rio de Janeiro. Foi percussionista do Grupo da Guarda Velha, liderado por Pixinguinha e que também tinha como integrantes Donga, China, João da Baiana, Bonfiglio de Oliveira, Tute e outros. Este grupo fez gravações de grande importância na década de 1930. Tio Faustino era um pai de santo respeitado e era muito ligado ao samba carioca, dominava vários gêneros de danças e ritmos populares, como caxambu, jongo e variações do samba. No Diário Carioca de 15 de janeiro de 1933 é atribuído ao Tio Faustino a introdução do afoxé e do agogô no samba, instrumentos de origem africana usados em rituais religiosos, que persistem no samba até hoje. Mas Tio Faustino ficou bem conhecido na sua época por introduzir no samba o omelê, instrumento também de origem africana, semelhante a um pequeno atabaque. Ele passou a usar este instrumento no Grupo da Guarda Velha e o compositor e instrumentista Donga tirou uma patente que supostamente restringia os direitos sobre o uso do omelê a este grupo musical.

Acontece que o Baiaco resolveu tocar omelê, e ainda encomendou um exemplar no mesmo fabricante do instrumento do Tio Faustino, adotando as modificações estruturais no instrumento que ele propusera. Armou-se uma confusão. Tio Faustino publica notas de repúdio em vários jornais em janeiro de 1933, n’A Noite do dia 14, saiu: “Estou admirado é como uma certa casa de música ignore que não pode usar uma coisa sem a vontade do seu dono. O omelê é privilégio da orquestra Guarda Velha. No entanto, há um moço, de nome Osvaldo Vasques, conhecido por Baiaco, que está tocando um perfeitamente igual. Ele conseguiu da casa que fez o nosso que o fizesse outro, quando isso constitui uma contravenção.”

Polêmica do omelê - Diário Carioca, 15 de janeiro de 1933 - Foto Tio Faustino
Faustino Pedro da Conceição, o Tio Faustino (Fonte: Diário Carioca, 15 de janeiro de 1933)

O troco de Baiaco veio rápido e n’A Noite do dia 21 do mesmo mês, ele publica: “O omelê nunca foi registrado; se o fosse quem o fizesse passaria pelo dissabor de ver os inventores de tal instrumento emigrarem da África para protestar junto às autoridades brasileiras, contra a infeliz usurpação. Ao seu Faustino da Conceição não cabe, pois, se arvorar em “Colombo do Omelê”, porque muito antes dele vir ao mundo, lá na África, e mesmo na própria Bahia, terra onde Tio Faustino nasceu, já se ouvia a marcação inconfundível do citado instrumento.”

 

Os sambistas do Estácio de maneira geral, assim como outros relacionados a eles, eram considerados sujeitos violentos, que se envolviam freqüentemente em crimes e brigas. Dizem que Baiaco era agressivo, tinha ficha corrida na polícia. É bastante comentado seu hábito de, por brincadeira, atear fogo em moradores de rua enquanto eles dormiam. Mas devemos considerar que estas pessoas eram pobres, sofriam muito preconceito por serem negros e estavam muito próximas da inominável violência da escravidão. Até suas expressões religiosas eram duramente perseguidas pela polícia. É compreensível que eles reproduzissem a violência que sofriam. E parece justo considerar que estes sambistas, mesmo imersos em um ambiente de violência, sejam lembrados por terem sido capazes de revolucionar a música brasileira e criar com tanta sensibilidade composições que ficaram imortais.

Hoje não é possível saber com certeza os detalhes da briga entre Baiaco e Tio Faustino, nem saber seu desfecho verdadeiro. Mas contam-se estórias. Bruno Ferreira Gomes, no livro Wilson Baptista e sua época, conta um fato relatado a ele pelo compositor e cartunista Nássara. Baiaco teria dado um tapa em Tio Faustino, que, não devemos esquecer, era um poderoso pai de santo. Ele não reagiu com agressão física, no entanto, falou: “Olha Baiaco, você me deu um tapa, e eu não gostei. Não vô te dá o troco. Não vou não… Mas olha Baiaco, olha bem o que te digo, tu vai acabá se dismilingüindo que nem sabão nas mãos de lavadeira… pode ficar certo que vai.” Ainda segundo o relato de Nássara poucos depois deste fato, Baiaco teria sido preso e levado para o presídio da Ilha Grande, onde foi servido com comida envenenada, o que seria um hábito de policiais daquela instituição carcerária quando queriam se livrar de alguns presos. Diz que Baiaco sofreu muito e colocava muito sangue para fora, desmilingüiu-se e morreu. O Diário de Notícias de 19 outubro de 1935 anunciou sua morte com as seguintes palavras: “Baiaco definhou, mas, até a última hora não deixou o omelê – instrumento com que brilhou nas batucadas e nas gravações”. Por sua vez, Tio Faustino foi, de certa forma, esquecido pela história do samba e nos dias de hoje, como ele tanto quis naquele momento, ninguém mais toca seu omelê.

Recortes de jornal: 

Polêmica do Omelê - A Noite 14 de janeiro de 1933Polêmica do Omelê - Diário Carioca, 15 de janeiro de 1933Polêmica do omelê - Diário de Notícias, 19 de outubro de 1935 - morte de baiaco

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