O primeiro solo de violão gravado no Brasil

Columbia 194 - A. PalmieriAs primeiras gravações de violão solo feitas no Brasil são muito raras de serem encontradas nos dias de hoje. Mesmo gravações de violonistas com obras importantes, como por exemplo João Pernambuco, não foram reproduzidas em LP ou CD. Isto talvez se deva em parte a baixa qualidade das gravações feitas por meios mecânicos, ou seja, antes do advento do microfone elétrico, técnica usada entre 1902 e 1927. Mas certamente também é fruto do esquecimento generalizado que paira sobre a música das primeiras décadas do século XX no Brasil.

Trago aqui um disco do qual até agora não se tinha notícias claras e que possivelmente apresenta a gravação de violão solo brasileira mais antiga que foi lançada em disco. A gravação é do tango Rio-grandense, interpretada pelo autor – A. Palmieri – e lançada em disco Columbia por volta de 1910.

Para discutir por que esta talvez seja  a primeira gravação brasileira de violão lançada, relaciono abaixo os violonistas brasileiros que gravaram por meios mecânicos (1902-1927) e comento sobre seus discos gravados com esta técnica.

Américo Jacomino – Canhoto. Foi o violonista que mais gravou no período e também o primeiro a gravar violão solo para a Casa Edison, estreando com  valsa Belo Horizonte no disco Odeon 120.595, por volta de 1913. Gravou também como solista de violão e cavaquinho em mais de um grupo instrumental.

Álvaro Mabilde. Fez duas gravações, ambas para a Casa Edison: Odeon 120.757 – Mambira e 120.758 –  MimosoA primeira deles junto com um outro instrumentista tocando uma gaita de boca.

João Pernambuco. Fez quatro gravações na série Odeon 123.000 da Casa Edison, lançadas em 1926. Há rumores de que gravou também na Phoenix, mas isto precisa ser comprovado. Sobre a discografia do João Pernambuco, eu carrego uma observação pessoal que nunca vi publicada. Consta na Discografia Brasileira – 78 rpm o disco Columbia B-139 com uma música gravada aparentemente em solo de violão (sem ouvir o disco não é possível afirmar se é um solo de violão) chamada Jaci e Sertanejo, por João Guimarães. É bem conhecido que o nome completo do João Pernambuco é João Teixeira Guimarães. Esta simples observação pode ser interpretado como um indício de que o disco Columbia B-139 seja uma gravação do João Pernambuco. Cabe lembrar que João Pernambuco chegou ao Rio, vindo de Recife, em 1904, conforme está expresso na biografia deste violonista feita por José Leal e Arthur Barbosa – João Pernambuco, arte de um povo (Rio de Janeiro: Funarte, 1982), então ele poderia ter gravado na Columbia, que lançou discos entre 1908 e 1912.

Levino da Conceição. Fez seis gravações na série Odeon 122.000 da Casa Edison.

Rogério Guimarães. Fez apenas uma gravação mecânica na série Odeon 123.000 da Casa Edison. Posteriormente fez várias gravações como solista e acompanhador usando as técnicas de gravação elétrica.

Mário Pinheiro. Trata-se aqui do célebre cantor Mário Pinheiro, que gravou muitos discos cantando e se acompanhando ao violão. Ele lançou um disco de solo de violão, o Victor 98.989, com a música Petita (matriz B-9306), segundo a Discography of American Historical Recordings, gravado em 7 de junho de 1910 (http://adp.library.ucsb.edu/index.php/matrix/detail/200009417/B-9306-Petita).

  • Qual então a primeira gravação brasileira de violão solo lançada?

Dentre as citadas acima, as duas gravações mais antigas são: (1) Petita,  gravado por Mário Pinheiro e (2) Jaci e Sertanejo, talvez um solo de violão gravado por João Pernambuco. Ambas lançadas por volta de 1910 e que aparentemente não constam em coleções públicas, não foram passadas para LP ou CD.

A estas acrescentamos agora uma outra gravação feitam também por volta de 1910: (3) Rio-grandense, de A. Palmieri, gravada pelo autor no disco Columbia B-194. Esta gravação foi lançado originalmente no disco Columbia 11.957. A série B da Columbia é toda de relançamentos de discos das séries 11.000 e 12.000, que vinham com selo de cor violeta e a marca Disco Brazileiro Columbia. Na Discografia Brasileira – 78 rpm consta que estes discos foram lançados entre 1908 e 1911 e a série B, de relançamentos, em 1911 e 1912. A única referência sobre o Columbia B-194 aparentemente é a Discografia Brasileira – 78 rpm, mas nesta não consta que se trata de um solo de violão, provavelmente a informações sobre este disco foi retirada de um catálogo de discos publicado na época, não de um disco.

Não é possível por enquanto definir qual das três gravações mencionadas anteriormente é a mais antiga, mas o que acredito ser importante nesta discussão é ressaltar como a história do violão solo brasileiro é antiga e esquecida e como pode ser interessante e rico o seu resgate.

Columbia 194 - Riograndense- detalhe

É interessante lembrar que Márcia Taborda, no seu livro Violão e identidade Nacional, faz uma boa discografia do violão brasileiro em 78 rpm, porém não cita PetitaJaci e sertanejo ou Rio-grandense. Isto não é um demérito do trabalho dela, mas ilustra a dificuldade em lidar com estes discos antigos e a falta de conhecimento sobre o assunto.

Por fim, fica a pergunta sobre quem foi A. Palmieri. Não há nenhuma outra gravação deste violonista na Discografia Brasileira – 78 rpm, então possivelmente este é o único registro fonográfico que ele deixou, pelo menos como solista. Talvez este violonista seja parente dos irmãos Raul Palmieri (violão) e Jacó Palmieri (pandeiro) que tocaram na formação original do conjunto Oito Batutas. No Dicionário Cravo Albin on-line (http://www.dicionariompb.com.br/raul-palmieri) consta algumas informações sobre a família Palmieri.

Abaixo a gravação de Rio-grandense no disco Columbia 194.

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8 comentários

  1. Magnifico artigo Sandor. Meus parabéns. Excelente exame dos dados disponíveis a respeito dos primórdios dos registros sonoros do violão brasileiro. Adoro ler sua página. Abraços, gil

  2. Sobre a primeira gravação de João Pernambuco: No jornal A Pátria, de 12/09/1930, na seção “Galeria dos Nossos”, está assim escrito: ” Quem folhear um prospecto de julho de 1914 da ” Casa Phoenix”, de Julio Bohm e Cia, da rua da Assembleia, lá encontrará a lista dos solos de violão do conhecidíssimo João Pernambuco: 1) Batuque do Norte;2) Mathilde, mazurca de Carlos Garcia Tolsa; 3) O Pernambuco no Samba, de J. Santos (Quincas Laranjeira);3) Uma Lágrima (Delírio), noturno de Gaspar Sagreras;4) Pensando em Agostinha, valsa de João Pernambuco;5) O Bilhar no Choro, tango de Satyro Bilhar.
    Esses foram talvez os primeiros solos de violão gravados no Rio de Janeiro”.
    Parabéns pelo Site.
    Abraços,
    Jorge Mello

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