Viola e rabeca de bambu no litoral sul do estado do Rio de Janeiro

Instrumentos de taquara - Illha Grande

 

No período das celebridades da Folia do Divino em Paraty, no sul do estado do Rio de Janeiro, no ano de 2000, conversei com um artesão de instrumentos populares que me falou sobre a tradição da construção de violas e rabecas de bambu naquela região. Tradição que, segundo ele, era de origem indígena. Encomendei com ele a rabeca de bambu mostrada na figura ao lado.

Além de achar pouquíssimas referências na literatura sobre cordofones de origem indígena, percebi que aquela tradição estava se acabando naquela região.

Então pesquisei sobre o assunto e escrevi dois pequenos textos que foram publicados no jornal O ECO, da Ilha Grande (Angra dos Reis), e no site Cirandeiros e foliões da Ilha Grande. Os textos seguem abaixo, junto com imagens de uma entrevista.

Viola de bambu: um raro instrumento musical presente na Ilha Grande

Na edição de agosto de 2015 de O ECO, publiquei um artigo intitulado “Viola e rabeca de taquara no litoral sul do Estado do Rio de Janeiro”, onde mencionava com dúvidas a possibilidade da existência de violas de bambu (bambu é sinônimo de taquara) na Ilha Grande. A viola de bambu é um instrumento raro e muito pouco noticiado na literatura. Aparentemente sua origem é indígena; Helza Camêu faz um dos poucos relatos sobre este instrumento no seu livro “Introdução ao estudo da música indígena brasileira”, publicado em 1977.

Em 14 de outubro do ano corrente, tive a oportunidade de conversar com dois antigos moradores nativos da Ilha Grande: Benedito Crespim do Rosário, conhecido pelo apelido de Côco, e Arlete Maria Oliveira de Castro (o trecho da entrevista referente a esta matéria está disponível on-line: https://www.youtube.com/watch?v=bbhQEIfJSPE). Eles me falaram pormenorizadamente da existência de viola de bambu na Ilha Grande. Contaram como se fosse um instrumento dos tempos passados, que caiu em desuso há anos. De fato, busquei informações sobre estas violas com vários moradores mais novos e não obtive nenhuma resposta. A peculiaridade de sua construção, sua raridade, sua origem indígena fazem deste instrumento objeto de grande interesse, mais um dos tesouros culturais da Ilha Grande.

O Côco falou que para fazer estas violas “tirava aquela pelizinha do bambu […] e colocava um pauzinho por baixo […]. Tinha umas cinco ou seis cordas […] aí dava um som bom, que ela esticava bem. […] Isto começou como brincadeira de criança, depois… Por exemplo, tinha um baile e não tinha viola, os caras inventavam de fazer isto aí. […] Ninguém tem viola… ah, a gente faz. Aí cortava um gomo de bambu, deste bambu verde, um bambu grosso assim [fez com a mão o diâmetro de aparentemente um pouco mais de 10 cm], aí metia a faca assim, puxava aquela lapada, soltava do lado e do outro e prendia.” “E tinha gente que tocava música mesmo naquilo… naquelas violas de bambu”.

Publicado no jornal O Eco (Angra dos Reis, Ilha Grande), dezembro de 2015 e no site Cirandeiros e foliões da Ilha Grande (Angra dos Reis, RJ) : música e memória

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Viola e rabeca de taquara no litoral sul do estado do Rio de Janeiro

O uso de instrumentos de percussão e sopro na música dos índios brasileiros é bem difundido, ao contrário do que acontece com instrumentos de cordas. Uma referência importante sobre este assunto é o livro “Introdução ao estudo da música indígena brasileira”, de Helza Camêu, publicado em 1977. Neste livro, depois de discorrer e ilustrar por quase sessenta páginas os instrumentos de percussão e sopro, a autora acrescenta apenas as seguintes informações sobre instrumentos de corda, apresentadas de maneira um pouco trucadas:

“Em matéria de instrumento de corda, o índio que vive ainda em sua cultura, embora possivelmente desvirtuada, não se tem revelado muito interessado sob esse aspecto. Tem-se notícia e mesmo o Museu do índio já possui um arco musical e em seu acervo existe uma espécie de cítara de bambu, cujas fibras, desfiadas, se tornam cordas delicadas; procede dos índios Canelas (Ramkonkrameka), ex. 4.877. As cordas são colocadas sobre cavaletes também de bambu e infelizmente não há informação como faziam ou fazem soar a peça”.

A Biblioteca Nacional produziu a exposição chamada “Instrumentos musicais indígenas brasileiros”, baseada em desenhos de José Coelho, e publicou um catálogo em 1979, comentado pela Helza Camêu. Nesta publicação está ilustrado o instrumento referido anteriormente pela autora, mas agora ela sugere que o instrumento seja construído do tronco da palmeira buriti, ao invés de bambu, e diz ser originário de índios do município de Barra do Corda, no estado do Maranhão.

Também há algumas citações de que os índios Avá-canoeiros, do estado de Goiás, usam um instrumento que consiste de uma base de madeira escavada na qual se coloca uma corda única. No premiado filme documentário “Histórias de Avá – o povo invisível”, dirigido por Bernardo Palmeiro, há uma rápida imagem deste instrumento sendo tocado.  Mas de qualquer maneira, são extremamente raros os cordofones de origem indígena no Brasil.

No início dos anos 2000, em visita ao município de Paraty, fui informado de que naquela região havia uma tradição de construção de instrumentos de corda de origem indígena feitos de taquara (um sinônimo de bambu) semelhante àquele descrito por Helza Camêu. Eram simples gomos de taquara, do qual se desfiava algumas fibras, fibras estas que eram mantidas estendidas com algum fragmento de madeira ou mesmo de bambu, e que assim funcionavam como o cavalete de um violão; ainda me informaram que estes instrumentos podiam ser tocados com arco, então sendo chamados de rabeca, ou com os dedos, então sendo chamados de viola.

Um luthier popular, de origem uruguaia, foi o primeiro a me falar sobre esta tradição e a me descrever estes instrumentos. Ele me mostrou algumas rabecas de bambu fabricadas por ele mesmo, dizendo ser uma forma mais sofisticada feita a partir de um modelo de rabeca de taquara de fabricação tradicional indígena, na qual ele acrescenta cravelhas de madeira e cordas de violão.

A partir disto, passei a recorrer a memórias dos moradores antigos da região para saber mais informações sobre a tradição de construção destes instrumentos, mas consegui apenas poucos depoimentos. Na Vila do Abrahão, na Ilha Grande, a senhora Diamante Cocotós me revelou que havia por lá violas que se enquadravam na descrição que fiz, mas como não mostrei um exemplar e nem uma fotografia dos instrumentos, acredito que seja necessário confirmar esta informação. Em Paraty consegui o depoimento de certo cavaquinista, que tocava na festa de Folia do Divino. Ele me descreveu em detalhes como se construíam violas de taquara e disse ser um instrumento muito rudimentar, usado por aprendizes, e talvez também dado a crianças como um brinquedo de iniciação musical. Além disso, falou que era usado se referir jocosamente a violeiros de baixa qualidade técnica como tocadores de viola de taquara, acrescentado a seguinte quadra referente a isto, que disse ser popular:

Aprendi tocá viola
numa viola de taquara
uma moça me chamou
violeiro de meia cara  

Anos depois ouvi esta mesma quadra com ligeiras modificações cantada por uma dupla de cantadores violeiros de Minas Gerais, mas não pude averiguar se eles atribuíam os versos a algum autor ou se os consideravam de autor desconhecido.

Os indícios aqui apresentados, embora bastante escassos e fragmentários, sugerem que de fato existe uma tradição de fabricação instrumentos musicais de corda de origem indígena na região sul fluminense. Uma tradição que aparentemente nunca foi bem documentada, que é rarefeita hoje em dia, com certo grau de endemismo e que está em vias de ser extinta na região.

Publicado no jornal O Eco (Angra dos Reis, Ilha Grande), pág. 28, 06.08.2015 eno site Cirandeiros e foliões da Ilha Grande (Angra ods Reis): música e memória

 

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