O bar Semente e a Lapa dos anos 90

Publicado na Revista Música Brasileira em 17 de dezembro de 2013 

Bar Semente 1Palco de importantes episódios da história da música brasileira, a Lapa é talvez o bairro
mais representativo da boemia carioca. Após um longo período de abandono, nos anos 90 começaram a surgir elementos que possibilitaram o vigoroso reflorescimento da vida noturna e cultural com que a Lapa entrou nos anos 2000. Este reinício foi marcado por um pequeno bar na esquina da Rua Joaquim Silva com Evaristo da Veiga, chamado Semente. Sua fundadora foi Regina Weissmann, servidora pública na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que manteve seu empreendimento entre de 1998 a 2003. Foi tal a importância deste bar, que algumas pessoas chegam a lhe atribuir à responsabilidade pela maior parte da revitalização da Lapa, pelo início de um movimento cultural, pela união de uma geração de músicos com um novo olhar para o choro e o samba. Passados 10 anos do período em que esteve à frente do Semente, Regina lembra com orgulho de sua história e da ousadia qu
e teve em investir naquele sonho. Hoje ela tem vontade de contar suas memórias e me cedeu uma entrevista improvisada no bar Nova Capela, na Lapa, na noite chuvosa de 5 dezembro de 2013,  da qual transcrevo alguns trechos abaixo. Foi um amigo que tocava às sextas feiras neste restaurante, que já se chamava Semente. Ele tinha uma banda de música latina. Era uma coisa muito esvaziada, muito porta fechada. Conhecendo já o dono do restaurante, ele me informou que estava passando o ponto. Eu apenas de brincadeira falei como a minha irmã: – vamos pegar? Ela me olhou com a cara muito feia. Mas aquela brincadeira ficou na minha cabeça e eu tive vontade realmente de pegar o ponto, não sabendo direito pra que. Fui pensando e este projeto cultural foi se formando na minha idéia. E de fato eu peguei o ponto. Falei com o pessoal da velha guarda da Portela para me indicar um pessoal para começar a trabalhar.
Foi um ato louco, inconseqüente. Por que a Lapa naquele momento era um bairro inteiramente vazio, escuro, cheio de gente cheirando cola, mendigos jogados e sem nenhuma infra-estrutura, sem nenhuma segurança para que se criasse alguma coisa que funcionasse a noite. Então, inconseqüentemente, eu resolvi iniciar um movimento que atraísse a classe média, o jovem da classe média para o samba, para o chorinho.
Naquele momento, era 1998, o jovem da classe média, o branco, o menino da zona sul só gostava de rock, da música estrangeira e não valorizava a nossa música. E meu sonho era ver aquele menino, aquela menina dançando juntos, e não só separados; dançando um chorinho, um samba e gostando daquilo e cantando juntos. E eu consegui. Tenho muito orgulho disto. Foi um projeto cultural de sucesso, financeiramente foi um fracasso total. Não me arrependo, me orgulho de ter dado a Lapa esta contribuição pra que ela voltasse a ser a Lapa, por que ela não era.
Os primeiro músicos foram Teresa Cristina, o grupo Abraçando Jacaré… E eles foram chamando outros músicos pras outras noites e aí outras pessoas foram se oferecendo e eu dava oportunidade para que elas se apresentassem.
Então eu vi a classe média começar a gostar do samba, do chorinho. E hoje você vê que, na Lapa, as casas noturnas são em grande maioria de samba e de chorinho. E você entra e quem está lá é a classe média. É uma crítica que se faz a Lapa hoje em dia. Hoje a Lapa, principalmente dentro das casas noturnas, é só da classe média.
Eu tive que fechar por que eu fali. As outras casas de música não vão falir por que cobram caro. No dia que eu fechei, paguei a todo mundo, aos garçons, músicos e tal e não tinha um centavo para voltar para a casa. Eu pedi dinheiro emprestado a um garçom, peguei um taxi e voltei para a casa. Então financeiramente foi um fracasso total, mas tenho orgulho.
A Lapa hoje está esgotada, ela se esgotou. É tanta coisa… Quer dizer, tem um lado bom de ser tanta coisa, mas ela deixou de ser genuína. Passou a ser muito comercial. A minha cabeça não é de comerciante, por isto eu faço esta análise. Eu adorava ver o músico entrando por dentro do Semente, ir até a cozinha pegar uma cerveja. Eu sentia como se fosse a minha casa.

 

Foto de Sandor Buys: Tiago Souza e Zé Paulo Becker, que participaram do Semente nos anos 90, acompanham  a cantora paulista Karine Telles.

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