Nênia de Carvalho: memória musical jogada ao lixo

Publicado na Revista Música Brasileira em 30 de junho de 2015 

Quem coleciona discos e livros sobre música popular brasileira está acostumado a ver acervos importantes de artistas sendo descartados ao lixo, muitas vezes pelos seus próprios familiares. Com mNênia de Carvalho - perfiluita sorte, estes acervos, à beira de serem definitivamente perdidos, podem cair nas mãos de catadores de papel que, por sua vez, repassam para vendedores de antiguidades e ficam então disponíveis para colecionadores. Sim, infelizmente, apenas para colecionadores particulares, pois parece mesmo que nossas instituições públicas ainda não assumiram pra si a função de formar acervos importantes sobre música brasileira.

E mais uma vez me aconteceu: um vendedor me telefonou e disse que tinha um conjunto de partituras e alguns outros papéis que pertencera a uma tal artista de nome pouco conhecido. Fui conferir e lá estava mais de uma centena de partituras manuscritas de composições da pianista, cantora e compositora Nênia de Carvalho Fernandes, aparentemente quase todas inéditas. Eram peças para piano solo, duo de piano e outras pequenas formações camerísticas, um vasto repertório de peças didáticas infantis, além de várias canções feitas com parceiros ou com letras da própria autora. Chamou à atenção a grafia musical impecável da autora e o capricho das encadernações adornadas com recortes de revistas, em que ela colocava conjuntos de algumas poucas partituras.

O nome da Nênia de Carvalho é desconhecido hoje em dia, da mesma forma que grande parte dos compositores e instrumentistas do seu tempo. As únicas informações biográficas publicadas que consegui sobre ela estão no livro “Nós, as mulheres (notícia sobre as compositoras brasileiras)”, de Eli Maria Rocha, publicado em 1986, em edição da autora. Ela conta que a Nênia nasceu no dia 19 de novembro de 1914, formou-se em canto e piano no Conservatório Brasileiro de Música. Também que participou como compositora do Conjunto de Percussão Dora Pinto e possui cerca de 360 composições. Além disso, que atuou ativamente como professora de música e em trabalhos em rádio.

Uma busca na Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional revelou várias reportagens que citam a Nênia em jornais e revistas, especialmente ao longo da década de 1950. O último anúncio de recital dela encontrado foi publicado no Diário de Notícias e ocorreu em 4 de novembro de 1952, no Conservatório Nacional de Música, no Rio de Janeiro. Mais tarde aparecem anúncios de recitais de outros intérpretes que incluíram composições da Nênia no programa. Mas, por razões não identificadas, na década de 1960 seu nome começa a aparece mais escassamente. Em julho de 1965, mais uma vez o Diário de Notícias anuncia um programa na Rádio Ministério da Educação produzido e apresentado por Belmira Frazão e Arnaldo Rabelo sobre a obra de Nênia de Carvalho. Posterior a isto nada mais foi encontrado nos periódicos on-line da Biblioteca Nacional.

Agora, cinqüenta anos depois deste silêncio em torna da Nênia de Carvalho, trago a notícia de que pelo menos parte de seu acervo de partituras manuscritas foi encontrado no lixo e passado a um vendedor de papéis antigos. Aparentemente junto às partituras havia outros papéis que poderiam contar um pouco mais da história desta compositora esquecida, mas quem os encontrou não deu muita importância a eles; perderam-se definitivamente. Enfim, felizmente as partituras da Nênia caíram em mãos que vão divulgá-las na medida em que lhes é possível. Mãos de um colecionador particular, que junta material sobre música não apenas com a obsessiva mania de guardar coisas velhas, mas que de coração lamenta o descaso com a memória cultural no Brasil, que sente falta de instituições públicas que cuidem desta memória, e que se esforça especialmente para dar luz à certos artistas esquecidos do meio musical brasileiro.

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