Humberto Franceschi: a Casa Edison e nosso tempo

Publicado na Revista Música Brasileira em 25 de junho de 2014 

“Quando morFranceschire um personagem qualquer da cultura de massa norte-americana, a mídia brasileira faz logo um grande estardalhaço e várias homenagens. Mas quantos brasileiros que batalham pela nossa cultura morrem, não se vê repercussão nenhuma na mídia, nem homenagens. Só o esquecimento recobre nossos heróis.”

O sisudo comentário acima bem poderia ter surgido em uma conversa com Humberto Franceschi, que nos seus oitenta e poucos anos se mostrava magoado com a desvalorização das coisas brasileiras, especialmente da memória musical. Muitas vezes ele chegava ao limiar da rabugice, mas nas horas e horas que me punha a conversar com ele, e principalmente a ouvi-lo, sempre descortinei entre suas reclamações uma paixão pelo Brasil e pela música e o ressentimento de ver nosso tão belo passado musical cair no esquecimento. E talvez ele falasse neste momento, em resmungos, que este esquecimento vem em detrimento da valorização dos muitas vezes patéticos personagens criados pela indústria do entretenimento musical.

Mas quem era Humberto Franceschi? Um brasileiro que batalhou pela nossa cultura, sem dúvida. Ele se dedicou, talvez como mais ninguém, a estudar os primórdios do registro sonoro e da indústria fonográfica no Brasil. Sobre este assunto, publicou em 1984 o livro “Registro sonoro por meios mecânicos no Brasil” e, em 2002, “A Casa Edison e seu tempo”. A propósito, cabe aqui lembra que gravações por meios mecânicos são aquelas feitas até 1927, antes do advento do microfone elétrico.

O registro sonoro no Brasil começou em 1900, colocando nosso país entre os primeiros no mundo a terem uma ligação com a indústria fonográfica. Coube o pioneirismo deste empreendimento ao imigrante tcheco Fred Figner, que fundou a Casa Edison no Rio de Janeiro. Nos primeiros anos, o suporte de registro sonoro era exclusivamente o cilindro, que paulatinamente deu lugar ao disco a partir de 1902, este último muito mais eficiente e durável.

E o que importa hoje a música gravada nos tempos da Casa Edison? O que está registrado nestes discos mecânicos são modinhas e lundus cantados por artistas de êxito ainda do século XIX, está registrada a maneira de se tocar polcas, mazurcas e outras danças européias que deram origem ao nosso choro, estão registradas técnicas e sotaques característicos da flauta, violão e cavaquinho dos fundadores dos regionais brasileiros, o toque ao piano do Ernesto Nazareth e da Chiquinha Gonzaga. Além do florescimento do maxixe e do samba, do Pixinguinha, do Francisco Alves, da Aracy Cortes e de muitos outros artistas que forjaram a nossa música popular atual. Portanto, conhecer a música deste período é muito importante para entender o desenvolvimento da nossa música popular – são as origens. Mas o que se vê no início do século XXI é que a era das gravações por meios mecânicos no Brasil é imensamente esquecida.

Como bem frisava o Franceschi, as matrizes dos discos desta época foram perdidas, nos restaram apenas os discos. Mas os discos são frágeis e não tivemos instituições públicas preocupadas com a memória musical que os guardasse antes deles se tornarem tão raros. O esforço individual e apaixonado de pesquisadores-colecionadores como Almirante, Ary Vasconcelos, Nirez e Jairo Severiano e, é claro, Humberto Franceschi foi a salvação para o pouco que temos hoje da música daquela época.

Há poucos dias atrás (21 de junho de 2014), morreu Humberto Franceschi, aos 84 anos. Não houve estardalhaço na mídia. Um dos maiores estudiosos de uma fase tão importante da música brasileira não foi muito lembrado, como bem merecia ser. Não foi muito lembrado, como também não é lembrada a Casa Edison e seu tempo. Que descanse em paz, este brasileiro batalhador pela nossa cultura. Ainda bem que, além dos poucos velhos discos, também nos restaram os livros que ele escreveu a nos indicar os caminhos e dar inspiração para, de alguma forma, seguir batalhando pela nossa cultura brasileira.

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